Inflação ao serviço dos patrões

A verdade é que a inflação é parte das dinâmicas essenciais da economia capitalista, já que age como um mecanismo de redistribuição do dinheiro dos trabalhadores para o bolso dos patrões em sectores muito beneficiados pelo aumento dos preços, como o da energia.
Alexandre Elias, trabalhador no sector da banca
24 de setembro de 2022

Um espectro ronda a Europa - o espectro da inflação. Este ano, as estatísticas oficiais apontam para uma inflação a rondar os 10% na economia do Euro, com os números oficiais do Eurostat a confirmarem 9,1% em Agosto, para Portugal. Em todo o mundo, as causas mais frequentemente apontadas para o aumento generalizado dos preços são o aumento vertiginoso dos preços da energia para os consumidores finais - consequência da retirada da Rússia dos mercados financeiros e comerciais internacionais - e o agravamento dos custos nos transportes e distribuições (as chamadas cadeias de abastecimento), que tem marcado a economia mundial desde o início da pandemia de Covid 19.


Com tudo o que se tem falado de inflação este ano, são os trabalhadores desfavorecidos e sem propriedade que sofrem mais com o aumento generalizado dos preços. Os salários já perderam quase 5% do seu valor face ao ano passado. A inflação súbita e acentuada, que começou a galopar no início deste ano, encarece os serviços e os bens essenciais, deixando os trabalhadores à mercê da boa vontade dos patrões e do poder político, que parece disposto apenas a tomar medidas redistributivas para comprar alguma paz social sem desafiar os grupos instalados da energia e do retalho.


As medidas de apoio recentemente anunciadas pelo Governo, nomeadamente os magros 125€ que vão ser distribuídos pelos contribuintes, representam apenas uma pequena parte do poder de compra que cada trabalhador já perdeu este ano, se não receber um aumento salarial correspondente à inflação. Como sabemos, os salários não aumentam nem de perto na proporção da perda de rendimentos enquanto as pensões, após o recente anúncio do Governo, ainda vão ficar mais penalizadas a partir de 2024. A perda de rendimentos nos salários, segundo dados recentes, vai chegar a 44€ para o ano que vem no salário de referência, mesmo após os “apoios”.


Os patrões e os seus representantes, esses, têm passado a maior parte do ano a cumprir o seu papel, reclamando apoios, subsídios e demais benesses do Estado burguês para se escudarem dos efeitos do aumento dos preços no consumo, nas suas margens de lucro. A verdade é que a inflação é parte das dinâmicas essenciais da economia capitalista, já que age como um mecanismo de redistribuição do dinheiro dos trabalhadores para o bolso dos patrões em sectores muito beneficiados pelo aumento dos preços, como o da energia. De facto, os lucros da GALP aumentaram 157% este ano. Um saque.


Note-se, ainda assim, que a inflação favorece sobretudo as empresas mais capitalizadas e com estruturas financeiras mais complexas, já que estas recorrem a métodos de crédito como o 'factoring' para a sua gestão. A inflação favorece as empresas que já pediram dinheiro e deixa as empresas devedoras venderem hoje mais caro, quando pagaram ontem aos fornecedores a preços mais baixos. Os aumentos recentes das taxas de juro são uma reação a este fenómeno.


Já as pequenas e médias empresas não têm tanta capacidade de aproveitamento dos mecanismos da inflação, nem de aumentarem os preços, dado que estão mais sujeitas à concorrência e a procura dos seus bens e serviços não é tão fixa. Para estas empresas, a solução mais fácil é despedir ou reduzir salários para fazer frente à redução no consumo, em tensão com os interesses declarados dos trabalhadores, que neste momento querem sobretudo manter os seus empregos e manter o seu poder de compra face à desvalorização do dinheiro (o preço do pão, por exemplo, aumentou na ordem dos 15% este ano).


Os lucros das grandes empresas à custa dos trabalhadores só podem ser limitados com medidas concretas de controlo dos preços

A acrescer ao mecanismo económico da inflação, está a incapacidade ou a falta de vontade do poder político em limitar o roubo descontrolado dos cartéis da energia e do retalho. Os lucros das grandes empresas à custa dos trabalhadores só podem ser limitados com medidas concretas de controlo dos preços - tabelando o preço dos combustíveis e dos bens alimentares e demais essenciais, impondo-lhes limites. Isto é ainda mais essencial, tanto que a inflação resulta de factores ambientais e externos à economia nacional. Os patrões estão a lucrar com a mudança dos factores económicos em todo o mundo, e ainda são subsidiados pelo Estado para garantir que não existam quebras no consumo.


A inflação agrava disparidades económicas e concentra riqueza nas mãos dos patrões e sectores que detêm produtos essenciais e com procura fixa, como os combustíveis. O poder político, por seu turno, cumpre o seu papel de gestor de turno da economia e da chamada paz social usando fundos europeus para dar benesses pontuais aos trabalhadores. Estas medidas, por convicção do Governo no apoio ao patronato, pouco fazem para resolver o problema do aumento dos preços. Aos trabalhadores, cabe-lhes organizarem-se para lutar!


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