Inflação, guerra e habitação

O salário médio em Portugal sofre a maior queda desde os tempos de má memória da tróica. A austeridade está viva e de boa saúde, para envergonhado gáudio de liberais e burgueses.
João Castro
João Castro, operário no sector aeronáutico
17 de maio de 2022

Os trabalhadores em Portugal sofrem uma perda do poder de compra, que pode chegar a 2,8% nas projecções mais pessimistas, porque a inflação suplanta largamente os magros aumentos de salários, nomeadamente do salário mínimo. O governo promete e compromete-se com o reforço da fatia que cabe aos salários no PIB, ou seja, com uma distribuição de riqueza gerada pelo trabalho que não beneficie tão descaradamente o patronato capitalista, mas, na prática, naquilo que realmente interessa aos trabalhadores, temos um recuo nesse indicador. Os proletários recebem este ano uma fatia ainda menor da riqueza por si criada, comparativamente ao ano passado. Daqui se conclui que a inflação é inimiga dos trabalhadores, mas não é de excluir que seja amiga de burgueses e de alguns especuladores.


Atente-se, por exemplo, nas centenas de milhões de euros que os monopólios dos combustíveis têm arrecadado nos últimos meses, usando como desculpa a instabilidade nas cadeias de fornecimento de petróleo provocada pela guerra na Ucrânia, para se apropriarem de receitas pornográficas aumentando a gasolina e o gasóleo, mais cêntimo, menos cêntimo, na mesma medida em que o governo baixa impostos. O PS, perante isto, terá ido pedir a Bruxelas permissão para impor limites ao desvario dos preços, provando mais uma vez que a independência e soberania do país são letra-morta e não vão além das comoções futebolísticas e festivaleiras.


Os merceeiros monopolistas, cartelistas e exploradores da Jerónimo Martins e da SONAE também aproveitam para surfar a onda inflacionária e aumentaram em cerca de 40 milhões de euros os seus lucros no primeiro trimestre de 2022, face ao período homólogo.


Entretanto, os que contraíram empréstimos para especular no mercado imobiliário assistem à desvalorização das dívidas relativamente ao aumento do valor dos imóveis, motivada pela inflação. Já as famílias que tenham um crédito habitação nada beneficiarão. Pelo contrário, irão assistir ao aumento das prestações devido à alta dos juros que, numa tentativa de abrandar a inflação, o banco central europeu opera.


O peso da colossal dívida do Estado cai de 127,4% do PIB em 2021 para 120,7% em 2022, em consequência da inflação. Esta aparente boa notícia é, no entanto, um presente envenenado. A dívida doravante contraída já incorporará a subida dos juros. Que o Estado se continuará a endividar é dado adquirido, posto que terá que fazer face às novas exigências militaristas, por um lado, e, por outro, às graves consequências sociais que a inflação acarretará. A insustentabilidade de um Estado e de um modelo económico vergado aos ditames da união europeia e aos interesses do patronato é crónica e a crise inflacionária só a agrava.


As centrais sindicais UGT e CGTP exigem a torto e a direito aumentos salariais que minorem a subida dos preços. A retórica é a do costume e os nulos resultados serão os de sempre. As suas políticas e práticas conciliatórias e oportunistas já as conhecemos.

Para lutar contra a inflação “austeritária” os trabalhadores em Portugal necessitam de estar organizados em sindicatos combativos e que não cedam a interesses burgueses. A solução é clara e cabe aos trabalhadores mais conscientes a tarefa de a tornar possível. É esse o compromisso que assume o Sindicato do Proletariado.


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