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O choro dos pequenos patrões

Horários repartidos e desregulados, baixos salários, precariedade laboral e a sobrecarga dos funcionários com várias tarefas, muitas vezes distintas daquelas para as quais foram contratados, são os principais ingredientes desta receita para o desastre económico que consiste em fazer o crescimento (anémico) da economia portuguesa depender do turismo.
Margarida Ferreira, trabalhadora na área de informática
03 de setembro de 2022

Os patrões da restauração, nesta época de Verão, - para além de explorarem até ao tutano os trabalhadores, como já é habitual - empreendem coletivamente um heróico esforço de combate à seca que assola o nosso país, regando os solos com as suas lágrimas de crocodilo.


Numa reportagem recente do DN, os patrões entrevistados queixaram-se de falta de apoios do Governo, de falta de seriedade da parte dos empregados e, ainda, lançaram a habitual acusação “Não há gente para trabalhar!”.


Horários repartidos e desregulados, baixos salários, precariedade laboral e a sobrecarga dos funcionários com várias tarefas, muitas vezes distintas daquelas para as quais foram contratados, são os principais ingredientes desta receita para o desastre económico que consiste em fazer o crescimento (anémico) da economia portuguesa depender do turismo.

Contra isto, a CGTP-IN e a UGT pouco ou nada fazem, limitando-se às parangonas do costume, sempre com a devida cautela, pois afinal os partidos políticos que as controlam não querem ouvir falar em luta de classes, mas sim em unidade e conciliação entre explorados e exploradores, enquanto prometem um amanhã glorioso a ambos, que só se cumprirá para os segundos.


Os patrões dizem que os trabalhadores nacionais foram laborar para outros setores devido ao fecho e restrições durante a pandemia, não regressando à restauração. Lamentam que os jovens estudantes - que no Verão iam trabalhar para os restaurantes e bares junto às praias - já não estejam disponíveis em tão grande número. A juventude trabalhadora tenta agora outros setores onde não sejam tantas as horas de laboração, que muitas vezes nem sequer são pagas. Queixam-se, também, da barreira linguística existente para com os imigrantes a trabalharem no setor.


Pedem facilidades para explorarem mais os empregados (sobretudo no caso dos imigrantes) e, borlas fiscais, para variar.


A verdade é que num setor altamente competitivo, em que existiam em 2020 mais de 73 mil (!) empresas com pequenas margens de lucro e com baixo investimento inicial, a tónica é colocada na exploração da força de trabalho, nomeadamente através do aumento da mais-valia absoluta.


Alguns dos patrões entrevistados referem que até gostariam de pagar salários melhores, mas que tal não é possível… continuando com a ladainha do costume, que nos faz questionar o que será que esperam para se tornarem trabalhadores, posto que, segundo nos dizem, nada é mais difícil e penoso do que ser empresário.


Para responder a esta pergunta basta falar com trabalhadores do setor. Melhor do que ninguém sabem explicar o que está na origem das dificuldades de contratação de funcionários que este enfrenta, com os quais lidam no dia-a-dia:


  • Assédio (moral, sexual, entre outros) no local de trabalho da parte das chefias, dos patrões e por vezes dos clientes;

  • Falta de condições de trabalho, com especial ênfase nas cozinhas, que cada vez são mais pequenas devido ao crescente custo do metro quadrado, sobretudo nos grandes centros urbanos, e muitas vezes sem disporem da devida ventilação;

  • Completa indiferença do patronato perante a legalidade: ausência de folgas semanais; horas extraordinárias não remuneradas; alterações de horários não consentidas; espionagem através das câmaras de vigilância dos estabelecimentos; entre outras ilegalidades.

  • Salários baixíssimos.


Estes são apenas alguns exemplos do tipo de falcatruas a que esta faixa do patronato português nos vem habituando.

Com a recessão económica anunciada na Europa, a reboque das sanções à Federação Russa e das inevitáveis consequências, a fatura da irresponsabilidade burguesa será apresentada novamente aos trabalhadores.


Resta-nos lutar pelo que é nosso, e tentar, com resistência e organização, levar o barco a bom porto, navegando marés engrossadas pelas patronais lágrimas.

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